Covid-19, o Dossiê de Piracicaba - Parte I

A redação desta matéria foi concluída na madrugada da quarta-feira, 7 de abril de 2021. Nesta última semana, nosso país vivenciou sua fase mais letal desde que foi registrado o primeiro caso de brasileiro declarado oficialmente infectado por Covid-19, em fevereiro de 2020. Ontem, 6 de abril de 2021, 4.195 famílias brasileiras perderam seus entes queridos, numa batalha sufocante e absurda que não termina após a morte, como iremos relatar aqui.

Este cenário caótico nacional não poupou nossa Piracicaba, aqui não foi diferente: iniciamos esta série de matérias na segunda-feira, 29 de março e desde este dia até o encerramento desta matéria, perdemos 71 piracicabanos para o covid-19. Em dois dias desta semana, Piracicaba bateu recordes de mortes: foram 13 piracicabanos mortos no dia 30 de março e 13 piracicabanos mortos no dia 6 de abril.

Nosso objetivo é oferecer a verdade para todos os nossos leitores, combater o vírus da ignorância, da falta de empatia, da inércia, da desinformação e das fake News. Sabemos que são estes os vírus verdadeiramente letais e é nosso papel, como imprensa consciente de seus deveres, informar e resistir.

Não nos poupamos, fomos para o campo de batalha, colocamos nosso corpo na linha vermelha, na linha de frente e nos expusemos verdadeiramente ariscando nos contagiar e contagiar nossa família. Mas, antes de nossos corpos chegarem fisicamente nas unidades de saúde que visitamos, nossos cérebros conscientes chegaram primeiro. Ao fim de cada cobertura realizada, quando partimos de cada uma das unidades de saúde deixamos nossos corações emocionados e solidários com cada um dos nossos entrevistados.


Não foi nada demais, essa é a nossa obrigação.

COT - Uma tragédia anunciada?


A Central de Ortopedia e Traumatologia – COT, foi inteiramente readaptada e a partir do dia 24 de março passou a funcionar como primeira porta de entrada para os pacientes com **SUSPEITAS** de COVID-19.
Escolhemos iniciar essa série justamente pelo COT no dia 29 de março, 5 dias após o seu início efetivo nas novas atividades para poder acompanhar de perto a triagem e os encaminhamentos dos pacientes.

Primeiramente temos que esclarecer que os pacientes ao chegarem são classificados por cores: verde, amarela e vermelha. As duas primeiras cores são consideradas de baixas e médias complexidades e são atendidos no mesmo local, alguns, destes, inclusive, ficam sob observação. Os pacientes classificados como vermelhos são os mais graves, que precisam realizar exames suplementares ou precisam ser intubados e são encaminhados para as outras Unidades de Saúde, como a UPA do bairro Piracicamirim e de lá podem ser direcionados, ainda, para outros hospitais.

O COT deveria funcionar como unidade de observação ou internação rápida, deveria. Porém, quando não há vagas em outras unidades os pacientes vão sendo acomodados por lá mesmo.
“Nós abrimos aqui há menos de uma semana e já não temos mais nenhuma vaga. Alguns destes pacientes já estão aqui há um bom tempo, porque não há vagas para transferí-los para nenhuma das outras unidades”, relatou um profissional da equipe de saúde.


Sangue, Suor e Lágrimas - Suor

De acordo com os relatos que recebemos, há no COT 20 leitos para atendimentos de pacientes adultos e 4 leitos para atendimentos de pediátricos.

No dia 29 de março, dia que colhemos os depoimentos que construíram esta reportagem, fomos informadas que haviam somente dois profissionais técnicos em enfermagem responsáveis por atender os 20 leitos; dois médicos; um enfermeiro responsável para toda a unidade; dois enfermeiros para a coleta de exames; um enfermeiro responsável por aplicação de medicações e um enfermeiro para atendimentos emergências.

Sobre os números acima relatados de profissionais atuando no COT, nossa reportagem consultou diversos profissionais da área da saúde que nos informaram que o número satisfatório para a realização de bons atendimentos deveria ser de um profissional técnico em enfermagem para cada 3 pacientes.

Com uma média diária de 600 atendimentos, falta profissionais! E este déficit impacta severamente a vida de todos que estão atuando. Relatos de profissionais que foram contagiados por COVID-19 mais de uma vez são frequentes (somente no dia 29 de março, 7 profissionais da saúde foram afastados do trabalho) e a realização de mais de 150 horas extras por mês também.

“Alguns dos profissionais que estão aqui são servidores públicos municipais que vieram deslocados de diversas outras unidades de saúde e outros foram contratados em caráter emergencial, todos são muito corajosos.

Chegamos aqui sem preparo algum para atuar, faltou treinamento porque a gente não sabia lidar com essa situação, nós não sabíamos a dinâmica e os protocolos que precisam ser feitos para enfrentar o Covid-19. Para os profissionais contratados a situação é ainda mais cruel porque após todos estes riscos e desgastes, ao término dos contratos eles serão dispensados sem nenhum direito”, relatou um profissional da equipe de saúde.

O contrato entrou em vigor no meio do ano passado e era válido por 6 meses, mas foi prorrogado por mais 6 meses e os profissionais permaneceram porque os números da pandemia não recuaram. Ouvimos alguns destes profissionais que nos relataram que estavam desempregados e por isso aceitaram os empregos.

A INFOMED é a empresa contratada pela Prefeitura Municipal para fazer a gestão destes trabalhadores terceirizados e alguns deles (segundo relatos) estão com seus salários atrasados. No mês passado eles se uniram e organizaram um abaixo-assinado com a intenção de entregar e notificar Conselho Regional de Medicina – CRM, este é o trâmite exigido para que os atendimentos de pacientes tarjados como verdes e amarelos fossem interrompidos. Pressionada, a empresa efetuou o pagamento dos salários do mês de janeiro no dia 15 de março.

A equipe se comoveu ao relatar que nos primeiros dias de funcionamento adaptado do COT para o COVID-19, não havia bebedouro ou água para consumo. Todos precisaram usar aplicativos de entrega e compraram com seus próprios recursos. Então, um companheiro de equipe localizou um bebedouro quebrado e deixado de lado na UPA do Piracicamirim e pagou pessoalmente pelo conserto.

Sede, vestuário extremamente quente e temperaturas absurdas: com ventiladores quebrados toda a unidade é extremante quente e só há ar-condicionado funcionando nas áreas de emergência.

Insumos e medicamentos - Sangue

No COT não havia nenhum respirador e diversos insumos estavam faltando, como sedativos para intubação, medicações anestésicas (suprimidas provisoriamente com doações de farmácias), cateteres, bucal de oxigênio (porque não há instalação para atender todas as necessidades da unidade e a equipe de saúde chegou ao ponto de revezar o uso dos aparelhos respiratórios entre os pacientes por 5 minutos com cada um) e em algumas unidades faltava macas e os pacientes estavam sentados em cadeiras pelos corredores, na UPA do Piracicamirim, por exemplo.

Pacientes que precisam de respiradores no COT, são encaminhados com urgência para a UPA do Piracicamirim ou para outras unidades, os 20 novos leitos que chegaram atenuaram brevemente o problema, porém a falta de leitos é uma ameaça perene para todos.

Lágrimas


Durante nossa reportagem fomos interrompidos! Um dos profissionais nos abordaram para mostrar um vídeo encaminhado por outro profissional que estava atuando em outra UPA. Chorando e soluçando, o profissional pedia socorro e repetia a frase: “pelo amor de Deus, me tirem daqui.” O profissional estava desesperado porque estava atendendo sozinho 15 pacientes internados e 7 pacientes morreram neste dia.
“Estamos esgotados fisicamente e muito abalados psicologicamente, nos amparamos uns nos outros, a troca de vídeos e mensagens é muito comum, nós somos muito unidos”, declarou um deles.

A dedicação extrema também atingiu o único profissional contratado e responsável por realizar as trocas de oxigênio em todas as unidades de saúde de Piracicaba: atuando 24 horas por dia, nos 7 dias da semana e com a avó recém falecida por COVID-19, ele precisou ser afastado do trabalho por alguns dias.

A empresa responsável pelo abastecimento de oxigênio, a IBG, não havia treinado e preparado outro profissional para substituí-lo. Então, outro herói anônimo foi chamado: um mecânico de automóveis que é servidor público municipal encarou essa responsabilidade para não deixar as unidades de saúde desabastecidas. Felizmente, o servidor atuou por pouco tempo porque o técnico responsável se reabilitou e retornou ao seu posto de trabalho.

Alarme e falsas esperanças

Toda a equipe de saúde está apreensiva com as novas cepas do vírus e nos contaram que os pacientes contagiados apresentam sintomas muito mais agressivos que evoluem muito mais rapidamente também.
“Essa nova variante do vírus que já está circulando aqui é muito mais agressiva e vem contagiando principalmente pessoas mais jovens. Ela é tão avassaladora que os pacientes evoluem para casos mais graves de um dia para o outro”, enfatizou um dos profissionais.

Nossa equipe questionou os profissionais ouvidos sobre a esperança de diminuição na curva de contágio e consequentemente redução de óbitos e não ouvimos uma resposta esperançosa.
“Piracicaba virou uma grande fábrica de COVID-19! Você olhou o tamanho da nossa recepção e a quantidade de pacientes que estão sentados lá um do lado do outro? E se atentou que aqui recebemos pacientes com sintomas da dengue também? Piracicaba não vive somente um colapso de COVID-19, vive um surto de Dengue e os sintomas em alguns casos são similares.

Então, os pacientes chegam aqui com dengue, só que ele entra nesse ambiente apertado, sem circulação de ar, superlotado e com pessoas muito próximas umas das outras, aí o paciente entre o paciente entra com dengue aqui e ele sai com COVID”, desabafou um dos profissionais da equipe de saúde.

Muito desgastados, todos os profissionais se sentem desvalorizados e gostariam de serem ouvidos para poderem juntos apresentar alternativas e cobram por iniciativas da Administração Pública que minimizem seus impactos emocionais e controlem eficientemente a pandemia.

“Da maneira como as coisas estão sendo conduzidas, temos a certeza que nós não vamos conseguir controlar essa pandemia por aqui. Ontem (domingo 28 de março), quando chegávamos para trabalhar, vimos vários pontos da cidade com aglomerações. Hoje, com 7 mortos, não temos espaço na “casinha” para colocá-los e pra você ter uma ideia, a casinha dos cadáveres fica exposta aos olhos de toda a vizinhança e tem unidades de saúde tão mal organizadas fisicamente que enquanto estamos sentamos na cozinha comendo, passam com os corpos por cima de nós praticamente. É ou não é para lamentar a maneira como estão conduzindo?”, finalizou um dos profissionais ouvidos.

***Continua na próxima edição***

Atenção: os depoimentos foram cedidos voluntariamente; todas as fontes sempre serão preservadas e todos os depoimentos foram gravados.






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